
14 e 21 de junho de 2026
Espaço Cachuêra
APOIO CULTURAL

REALIZAÇÃO
ROTEIRO
por Maurício Detoni
Abertura
1) Vou vencer
(Entra o coro da plateia batucando e cantando, como num bloco de carnaval. Se posicionam espalhados no palco. Ao final, entra uma atriz no palco.)
Cena 1
ATRIZ (falando)
Meu nome verdadeiro é Agenor de Oliveira, nasci no dia 08 de outubro… 11 de outubro de 1908 na rua Ferreira Viana, no bairro do Catete, Rio de Janeiro. Eu comecei desde criança. Comecei a gostar de música com aqueles conjuntos de violões, cavaquinhos…
Morei no Catete até os 8 anos, depois fui pra Laranjeiras. Com dificuldade na vida, meu pai se mudou pro morro de Mangueira e no morro de Mangueira encontrei muita coisa, mas era muita música, uma batucada, uma batucada diferente. Ali no morro fundei com meus amigos a Estação Primeira de Mangueira, a mais importante das escolas de samba do Rio de Janeiro!
Aos 16 anos eu consegui fazer meu primeiro samba, muito ruim, não tinha nada de bom, pé quebrado, muito ruim. Por isso ninguém queria gravar meus sambas e acabei esquecendo alguns. Esse, por exemplo, “Vou vencer”, era um deles e ainda bem que o grupo trouxe de volta! Mas fui melhorando. Aos 18 fiz meu primeiro sucesso, “Divina Dama”, que eu vendi pro Chico Alves, mas isso é uma outra história.
Mas o sucesso mesmo veio muito depois, o rádio, os discos, os shows, os palcos…
2) Camarim
(Coro canta em posição espalhada.)
No camarim as rosas vão murchando
E o contra-regra dá o último sinal
As luzes da plateia vão se amortecendo
E a orquestra ataca o acorde inicial
No camarim nem sempre há euforia
Artista de mim mesmo nem posso fracassar
Releio os bilhetes pregados no espelho
Me pedem que jamais eu deixe de cantar
Caminho lentamente e entro em contra-luz
E a garganta acende um verso sedutor
O corpo se agita e chove pelos olhos
E um aplauso escorre em cada refletor
Pisando esta ribalta, cantando pra vocês
De nada sinto falta, sou eu mais uma vez
As rosas vão murchar, mas outras nascerão
Cigarras sempre cantam, seja ou não verão
(Aplausos.)
(Regente— textos de boa noite, boas-vindas, apresentação dos arranjadores. Coro se posiciona em duas filas, com vozes masculinas atrás e femininas à frente.)
3) Autonomia
É impossível nesta primavera, eu sei
Impossível, pois longe estarei
Mas pensando em nosso amor, amor sincero
Ai! se eu tivesse autonomia
Se eu pudesse gritaria
Não vou, não quero
Escravizaram assim um pobre coração
É necessário a nova abolição
Pra trazer de volta a minha liberdade
Se eu pudesse gritaria, amor
Se eu pudesse brigaria, amor
Não vou, não quero.
(Aplausos.)
Cena 02
(Mesa de bar sendo montada pelos cantores no centro/frente do palco enquanto a atriz fala o texto. Mesa com 3 cadeiras e instrumentos musicais. Coro vai se posicionando na parte de trás da mesa, em posição aberta, arejada, sem filas, como o público em volta de uma roda de samba.)
ATRIZ (cantando)
Tudo acabado
E o baile encerrado
Atordoado fiquei
Eu dancei com você, divina dama
Com o coração queimando em chama
ATRIZ (falando)
Fiquei louco
Pasmado por completo
Quando me vi tão perto
De quem tinha amizade
Na febre da dança
Senti tamanha emoção
Devorar-me o coração, divina dama!
Quando eu vi que a festa estava encerrada
E não restava mais nada de felicidade
Vinguei-me nas cordas da lira
De um trovador
Condenando teu amor
Tudo acabado!
(Mesa pronta com Músico já sentado [com violão], chama os amigos que vão entrando e compondo a mesa.)
MÚSICO
Dino, ô Dino! Ô Meira! Canhoto! Cadê o Gilberto, tá aí? Vamo mandar brasa!
(Entram os outros cantores do sexteto.)
4) Amor proibido
(Sexteto canta, com acompanhamento do coro no início e ao final.)
Sabes que vou partir
Com os olhos rasos d’água
E o coração ferido
Quando lembrar de ti
Me lembrarei também
Deste amor proibido
Fácil demais
Fui presa
Servi de pasto
Em tua mesa
Mas fique certa que jamais
Terás o meu amor
Porque não tens pudor
Faço tudo para evitar o mal
Sou pelo mal perseguido
Só o que faltava era esta
Fui trair meu grande amigo
Mas vou limpar a mente
Sei que errei
Errei inocente
5) Disfarça e chora
(Coro todo canta.)
Chora
Disfarça e chora
Aproveita a voz do lamento
Que já vem a aurora
A pessoa que tanto querias
Antes mesmo de raiar o dia
Deixou o ensaio por outra
Ó, triste senhora [entra instrumental]
Disfarça e chora
Todo o pranto tem hora
E eu vejo seu pranto cair
No momento mais certo
Olhar, gostar só de longe
Não faz ninguém chegar perto
E o seu pranto, ó, triste senhora
Vai molhar o deserto… vai molhar o deserto…
(Coro muda de posição enquanto canta a coda final. Sai mesa de bar, homens se formam em arco, em fila única, e mulheres se sentam de frente a eles. A ideia é que a música termine com a cena toda pronta.)
(Aplausos.)
6) Desfigurado
Dizem que estou desfigurado, com razão
Estou cansado de pedir a Deus, aos céus, enfim
Um amor, onde encontrarei, senhor?
Livrai-me desta nostalgia
Confiante, ainda espero o dia
Dizem que estou desfigurado, com razão
Estou cansado de pedir a Deus, aos céus, enfim
Um amor, onde encontrarei, senhor?
Livrai-me desta nostalgia
Confiante, ainda espero o dia
Meu coração é pobre e magoado
É infeliz como um menor abandonado
Viveu sempre nesta ilusão
Procurando outro coração
Dizem que estou desfigurado, com razão
Estou cansado de pedir a Deus, aos céus, enfim
Um amor, onde encontrarei, senhor?
Livrai-me desta nostalgia
Confiante, ainda espero o dia
Meu coração é pobre e magoado
É infeliz como um menor abandonado
Viveu sempre nesta ilusão
Procurando outro coração
Dizem que estou desfigurado, com razão
Estou cansado de pedir a Deus, aos céus, enfim
Um amor, onde encontrarei, senhor?
Livrai-me desta nostalgia
Confiante, ainda espero o dia
(Aplausos.)
(Homens trocam de lugar com as mulheres, que se posicionam em semi-círculo em duas filas.)
7) Acontece
Esquece nosso amor, vê se esquece
Porque tudo no mundo acontece
E acontece que já não sei mais amar
Vai chorar, vai sofrer
E você não merece
Mas isso acontece
Acontece que meu coração ficou frio
E o nosso ninho de amor está vazio
Se eu ainda pudesse fingir que te amo
Ah, se eu pudesse
Mas não quero, não devo fazê-lo
Isso não acontece
Esquece nosso amor, vê se esquece
Porque tudo no mundo acontece
E acontece que já não sei mais amar
Vai chorar, vai sofrer
E você não merece
Mas isso acontece
Acontece que meu coração ficou frio
E o nosso ninho de amor está vazio
Se eu ainda pudesse fingir que te amo
Ah, se eu pudesse
Mas não quero, não devo fazê-lo
Isso não acontece
(Aplausos.)
(Homens se levantam e coro se posiciona como anteriormente: em duas filas, com vozes masculinas atrás e mulheres à frente.)
8) O mundo é um moinho
Ainda é cedo, amor
Mal começaste a conhecer a vida
Já anuncias a hora de partida
Sem saber mesmo o rumo que irás tomar
Embora eu saiba que estás resolvida
Em cada esquina cai um pouco a tua vida
Em pouco tempo não serás mais o que és
Ouça-me bem, amor
Preste atenção, o mundo é um moinho
Vai triturar teus sonhos tão mesquinhos
Vai reduzir as ilusões a pó
Preste atenção, querida
De cada amor tu herdarás só o cinismo
Quando notares, estás à beira do abismo
Abismo que cavaste com teus pés
(Aplausos.)
9) Peito vazio
Nada consigo fazer
Quando a saudade aperta
Foge-me a inspiração
Sinto a alma deserta
Um vazio se faz em meu peito
E de fato eu sinto
Em meu peito um vazio
Me faltando as tuas carícias
As noites são longas
E eu sinto mais frio
Procuro afogar no álcool
A tua lembrança
Mas noto que é ridícula
A minha vingança
Vou seguir os conselhos
De amigos
E garanto que não beberei
Nunca mais
E com o tempo
Essa imensa saudade que sinto
Se esvai
(Enquanto o coro canta a coda, um sexteto e o solista se posicionam em semi-círculo em fila única, no centro do palco. O coro se dispersa e senta-se ao chão, atrás do grupo menor.)
10) Sim
(Solo com acompanhamento do sexteto.)
Sim
Deve haver o perdão
Para mim
Senão nem sei qual será
O meu fim
Para ter uma companheira
Até promessas fiz
Consegui um grande amor
Mas eu não fui feliz
E com raiva para os céus
Os braços levantei
Blasfemei
Hoje todos são contra mim
Todos erram neste mundo
Não há exceção
Quando voltam à realidade
Conseguem perdão
Porque é que eu, Senhor
Que errei pela vez primeira
Passo tantos dissabores
E luto contra a humanidade inteira
Cena 03
ATRIZ (declamando)
Tive sim
Outro grande amor antes do teu, tive sim
O que ela sonhava eram meus sonhos
E assim, íamos vivendo em paz
Nosso lar
Em nosso lar sempre houve alegria
Eu vivia tão contente
Como contente ao teu lado estou
Tive sim
Mas comparar com o teu amor seria o fim
Eu vou calar, pois não pretendo, amor, te magoar
(Coro se posiciona em semi-círculo em duas fileiras, com mulheres do lado esquerdo do palco e homens do lado direito.)
11) As rosas não falam
Simplesmente as rosas exalam
O perfume que roubam de ti, ai
Bate outra vez
Com esperanças o meu coração
Pois já vai terminando o verão
Enfim
Volto ao jardim
Com a certeza que devo chorar
Pois bem sei que não queres voltar
Para mim
Queixo-me às rosas
Mas que bobagem
As rosas não falam
Simplesmente as rosas exalam
O perfume que roubam de ti, ai
SOLISTA (cantando com acompanhamento do coro)
Devias vir
Para ver os meus olhos tristonhos
E, quem sabe, sonhavas meus sonhos
Por fim
(Aplausos.)
12) Corra e olha o céu
(Músico e solista se posicionam interpretar a canção sem acompanhamento do coro.)
Linda, te sinto mais bela
E fico na espera
Me sinto tão só
Mas, o tempo que passa
Em dor maior
Bem maior
Linda, no que se apresenta
O triste se ausenta
Fez-se a alegria
Corra e olhe o céu
Que o sol vem trazer
Bom dia
Ah, corra e olhe o céu
Que o sol vem trazer
Bom dia
13) Alvorada/Sala de Recepção
SOLISTAS (cantando)
Alvorada lá no morro, que beleza
Ninguém chora, não há tristeza
Ninguém sente dissabor
O sol colorindo é tão lindo, é tão lindo
A natureza sorrindo
Tingindo, tingindo
Alvorada lá no morro, que beleza
Ninguém chora, não há tristeza
Ninguém sente dissabor
O sol colorindo é tão lindo, é tão lindo
A natureza sorrindo
Tingindo, tingindo
Você também me lembra a alvorada
Quando chega iluminando meus caminhos tão sem vida
E o que me resta é bem pouco
Ou quase nada
Do que ir assim, vagando
Numa estrada perdida
Habitada por gente simples
E tão pobre que só tem o sol
Que a todos cobre
Como podes, Mangueira, cantar
Pois então saiba que não desejamos mais nada
A noite, a lua prateada, silenciosa
Ouve as nossas canções
Temos no alto um cruzeiro
Onde fazemos nossas orações
Temos orgulho de ser os primeiros campeões
Eu digo e afirmo
Que a felicidade aqui mora
E as outras escolas até choram
Invejando a sua condição
Minha Mangueira é sala de recepção
Aqui se abraça o inimigo
Como se fosse um irmão
Alvorada lá no morro, que beleza
(Aplausos.)
Cena 04
ATRIZ (declamando)
Fiz por você o que pude
Todo o tempo que eu viver
Só me fascina você, Mangueira
Guerreei na juventude
Fiz por você o que pude, Mangueira
Antes de julgar a minha vida, calce os meus sapatos, percorra o caminho que eu percorri, viva as minhas tristezas, as minhas dúvidas, viva as minhas alegrias, tropece onde eu tropecei e levante-se, assim como eu fiz.
15) O sol nascerá
A sorrir
Eu pretendo levar a vida
Pois chorando
Eu vi a mocidade
Perdida
A sorrir
Eu pretendo levar a vida
Pois chorando
Eu vi a mocidade
Perdida
Finda a tempestade
O sol nascerá
Finda esta saudade
Hei de ter outro alguém para amar
(No último refrão, o coro abre a formação e sai do semi-círculo para duas filas ocupando toda a extensão da frente do palco. Regente de frente para a plateia, integrado à primeira fila.)
(Aplausos.)
FIM
*
Depoimentos retirados do livro “Série Depoimentos: Cartola, fita meus olhos”. Fundação da Imagem do Som, Rio de Janeiro, 1998. Os depoimentos de Cartola foram gravados no Ciclo de Música Popular Brasileira no dia 03 de março de 1967, cujos entrevistadores eram Jacob do Bandolim, Mário Cabral e Ricardo Cravo Albin.
